À medida que a pauta ambiental ganha peso crescente nas decisões de consumo, o varejo alimentar se vê diante de uma responsabilidade que vai além da eficiência logística e do giro de estoque. Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, elucida que os supermercados ocupam uma posição estratégica na cadeia de geração de resíduos de embalagens, são distribuidores de produtos embalados, geradores de resíduos operacionais próprios e pontos de contato direto com o consumidor final. Essa posição tripla confere ao setor uma capacidade de influência sobre o ciclo de vida das embalagens que poucos outros agentes econômicos possuem na mesma medida.
O perfil dos resíduos gerados nas operações de varejo
Os supermercados geram resíduos em duas frentes distintas e igualmente relevantes. A primeira é a operacional: papelões de abastecimento, plásticos de filme, resíduos orgânicos de hortifrúti e produtos vencidos que precisam ser descartados antes de chegar ao consumidor. A segunda é a de pós-consumo: embalagens que saem com o comprador e retornam ao sistema de gestão de resíduos urbanos, cujo destino final é influenciado pelas escolhas feitas pelos fornecedores e pelo próprio varejista no momento da compra, da negociação e da exposição dos produtos nas gôndolas.
A gestão dos resíduos operacionais já atingiu razoável nível de estruturação nas grandes redes, com prensagem e venda de papelão e plástico para reciclagem sendo práticas consolidadas. O desafio mais complexo, segundo Marcello José Abbud, está na influência sobre as embalagens de pós-consumo, em que o varejista precisa exercer pressão sistemática sobre fornecedores para adotar formatos mais recicláveis e oferecer ao consumidor alternativas de menor impacto ambiental em suas escolhas cotidianas de compra.

Iniciativas que já demonstraram resultado concreto
Diversas práticas adotadas por redes varejistas ao redor do mundo demonstram que é possível reduzir significativamente o volume de resíduos de embalagens sem comprometer a experiência de compra ou a segurança alimentar dos produtos comercializados. Entre algumas medidas que reduzem na origem o volume de materiais colocados em circulação no sistema de gestão de resíduos urbanos estão a eliminação de embalagens secundárias desnecessárias, a criação de seções a granel para cereais, oleaginosas e produtos de limpeza, os sistemas de refil para produtos líquidos e a adoção de embalagens retornáveis para alguns itens de mercearia.”
Conforme informa Marcello José Abbud, programas de logística reversa estruturados em parceria com fornecedores representam outro avanço de grande relevância. Nesse sentido, quando o varejista assume o papel de ponto de coleta de embalagens pós-consumo, como pilhas, baterias, embalagens de óleo lubrificante e produtos de limpeza, contribui para fechar ciclos de materiais que de outra forma teriam destinação inadequada e reforça junto ao comprador a ideia de responsabilidade compartilhada entre fabricante, varejista e consumidor.
O poder de compra do varejo como alavanca de transformação
O varejo alimentar concentra um poder de compra que lhe confere capacidade real de influenciar decisões de embalagem em toda a sua cadeia de fornecimento. Grandes redes que estabelecem critérios claros de reciclabilidade como requisito obrigatório para o fornecimento de produtos criam incentivos econômicos diretos para que fabricantes reformulem suas embalagens em direção a formatos mais circulares e ambientalmente responsáveis. Essa alavanca de mercado é, em muitos contextos, mais ágil e eficaz do que a regulação pública para acelerar a transição para embalagens sustentáveis em escala comercial relevante.
De acordo com Marcello José Abbud, o varejo brasileiro ainda está no início dessa jornada, mas o movimento é consistente e tende a se intensificar nos próximos anos. Consumidores cada vez mais informados sobre o impacto ambiental das embalagens, combinados com critérios ESG que chegam progressivamente às cadeias de fornecimento das grandes redes, estão criando as condições necessárias para que o supermercado deixe de ser apenas um distribuidor de produtos embalados e passe a ser um agente ativo e estratégico da economia circular no Brasil.

