O Governo do Paraná lançou, em maio de 2026, a publicação Paraná Unido pelas Mulheres: A Operacionalização da Política de Gênero, obra produzida em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e organizada em dois volumes que reúnem 32 artigos sobre iniciativas municipais de proteção, autonomia e garantia de direitos para as mulheres paranaenses. Mais do que um registro institucional, o livro representa um esforço deliberado de sistematização do conhecimento acumulado na ponta do serviço público, onde as políticas de gênero encontram sua aplicação mais concreta e seus maiores desafios. Ao longo deste artigo, serão analisados o significado dessa iniciativa, o papel estratégico da parceria entre governo e universidade na produção de políticas eficazes e o que a experiência paranaense pode ensinar ao restante do Brasil sobre como estruturar programas voltados às mulheres com base em evidências reais.
Do Programa ao Livro: A Importância de Registrar o Que Funciona
O programa Paraná Unido pelas Mulheres, coordenado pela Secretaria de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa, a Semipi, funciona como uma caravana itinerante que percorre municípios paranaenses para mobilizar gestores locais, profissionais do serviço social e organizações da sociedade civil em torno da implementação e do fortalecimento de políticas públicas voltadas às mulheres. A publicação lançada é, em essência, a memória sistematizada desse processo.
Esse tipo de iniciativa responde a uma lacuna crônica na gestão pública brasileira: a produção de boas práticas sem que elas sejam documentadas, avaliadas e compartilhadas de forma estruturada. Municípios de pequeno e médio porte frequentemente desenvolvem soluções criativas para problemas complexos, como o acolhimento de mulheres em situação de violência doméstica, o fortalecimento da autonomia econômica feminina ou a criação de redes intersetoriais de proteção, mas essas experiências permanecem invisíveis para os gestores de outras regiões que enfrentam os mesmos desafios.
Ao reunir artigos de diferentes municípios paranaenses em um único volume, a publicação converte experiências locais em patrimônio coletivo. É uma escolha que vai na contramão da lógica de fragmentação que ainda caracteriza grande parte das políticas sociais no Brasil.
A Parceria com a Universidade Como Fator de Qualificação
A co-produção do livro com a PUCPR não é um detalhe decorativo. Ela representa uma decisão metodológica com implicações reais para a qualidade do material produzido. A participação de docentes e pesquisadores do curso de Serviço Social confere ao registro dos relatos municipais um rigor analítico que dificilmente emergeria de uma publicação institucional elaborada exclusivamente pelo poder público.
Há, nessa escolha, um reconhecimento implícito de que políticas públicas eficazes para as mulheres não se constroem apenas com boa vontade política e recursos orçamentários. Elas demandam capacidade técnica para identificar o que funciona, por que funciona e em que contextos os resultados podem ser replicados. A universidade traz essa lente avaliativa que o Estado, sozinho, raramente consegue sustentar com a mesma consistência.
O lançamento do livro dentro da programação que celebrou os 90 anos do Serviço Social no Brasil também é carregado de simbolismo. A profissão foi historicamente responsável pela operacionalização das políticas sociais brasileiras nos territórios, na base e na ponta, como ressaltado por participantes do evento. Vincular o registro dessas políticas à memória da profissão é uma forma de reconhecer uma contribuição que permanece subestimada no debate público sobre gestão social.
O Que os Números Dizem Sobre a Trajetória do Paraná
O estado registrou crescimento superior a mil por cento na estrutura de políticas municipais para mulheres nos últimos anos, de acordo com dados divulgados pela própria Semipi. Esse salto quantitativo só adquire sentido real quando acompanhado de instrumentos que permitam avaliar a qualidade e a sustentabilidade dessas estruturas, o que torna a publicação ainda mais relevante como ferramenta de governança.
Crescer em quantidade sem construir mecanismos de acompanhamento e aprendizado institucional é uma armadilha frequente em políticas públicas brasileiras, que tendem a se expandir em ciclos eleitorais e se deteriorar nas mudanças de gestão. A existência de um registro documentado das práticas municipais cria uma base de conhecimento que, ao menos em tese, sobrevive às trocas de governo e pode ser utilizada por gestores futuros, independentemente de sua filiação política.
O Paraná constrói, com essa publicação, um argumento concreto de que é possível escalar políticas de gênero com base em evidências territoriais. Se a experiência for acessível e replicável para outros estados, o impacto potencial ultrapassa em muito as fronteiras paranaenses e aponta para um caminho mais robusto de construção da agenda de direitos das mulheres em todo o país.
Autor: Diego Velázquez

