Operação Panóptico cumpre mais de 300 mandados judiciais simultaneamente em quatro estados e resulta em confrontos no interior paranaense.
Uma das maiores operações contra o crime organizado dos últimos meses no Sul do Brasil ganhou as ruas do Paraná e de Santa Catarina nesta segunda-feira, 15 de junho. Batizada de Operação Panóptico, a ação foi deflagrada pelo Ministério Público do Paraná, em parceria com a Secretaria da Segurança Pública estadual, e teve como alvo uma suposta organização criminosa de atuação nacional. Cerca de mil policiais cumpriram, simultaneamente, mandados judiciais no Paraná, em Santa Catarina, no Mato Grosso do Sul e em São Paulo. Para quem mora na Região Sul, a operação levanta uma dúvida importante: o que, exatamente, estava sendo investigado, e por que a ação chegou a resultar em troca de tiros em pelo menos dois municípios paranaenses?
O que motivou a Operação Panóptico
A operação foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, ligado ao Ministério Público do Paraná. Segundo nota oficial do órgão, o objetivo da ação é responsabilizar o maior número possível de integrantes da facção criminosa investigada, reduzindo sua capacidade de atuação no estado, reunindo provas e ajudando a esclarecer outros crimes atribuídos ao grupo. Ainda de acordo com o MP paranaense, parte das ordens de prisão tinha como alvo pessoas que já cumprem pena ou que aguardam julgamento dentro do sistema prisional, o que reforça a hipótese de que a organização mantinha ramificações mesmo dentro de unidades penitenciárias.
O nome da operação faz referência ao conceito de panóptico, estrutura arquitetônica prisional que permite a vigilância permanente dos presos a partir de um único ponto de observação, ideia que ganhou notoriedade após ser discutida pelo sociólogo francês Michel Foucault na obra Vigiar e Punir. A escolha do nome ilustra bem a proposta da ação: monitorar e desarticular, de forma ampla, a estrutura da organização criminosa investigada. Para isso, a Secretaria da Segurança Pública do Paraná mobilizou 204 equipes das polícias Militar, Civil, Penal e Científica, somando esforços que, segundo o órgão, buscam interromper as atividades ilícitas do grupo e ampliar a coleta de provas relacionadas a outros crimes.
Números da operação e confrontos registrados
Os números da Operação Panóptico dão uma ideia da magnitude da ação. No total, foram expedidos 304 mandados judiciais e 255 ordens de busca e apreensão. Desse total, 176 mandados de prisão e 92 ordens de busca e apreensão tinham como alvo pessoas que já estavam presas ou aguardando julgamento. Já entre os 128 mandados de prisão emitidos contra investigados que estavam em liberdade, 97 já haviam sido cumpridos até as 11h da manhã da operação, segundo balanço divulgado pelas autoridades paranaenses. A grande maioria das ações ocorreu no Paraná, espalhadas por 34 municípios, entre eles Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa e Guarapuava.
A operação também teve momentos de tensão. Pelo menos duas abordagens resultaram em troca de tiros, com um policial atingido em Cambé, na região metropolitana de Londrina, sem risco de morte segundo o Ministério Público do Paraná. Ainda de acordo com o órgão, dois suspeitos de integrar a facção criminosa morreram durante a ação, um em Cambé e outro em Nova Londrina, após reagirem à abordagem policial. Um deles tinha dois mandados de prisão em aberto, por tráfico de drogas e por roubo associado ao tráfico, enquanto o outro era procurado por integrar o PCC, organização criminosa com atuação em diversos estados brasileiros.
Por que a ação também chegou a Santa Catarina
Embora a maior parte das ações tenha ocorrido em território paranaense, mandados judiciais também foram cumpridos em outros três estados, com apoio das forças de segurança locais: Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Em Santa Catarina, a cidade de Joinville foi um dos pontos onde a Justiça determinou o cumprimento de mandados ligados à investigação, o que reforça a hipótese de que a organização criminosa mantinha ramificações que extrapolavam as fronteiras do Paraná, ocupando rotas e estruturas em outros estados da Região Sul e além dela.
Esse tipo de atuação interestadual não é incomum entre facções criminosas que utilizam o Sul do Brasil como rota logística, seja pela proximidade com portos importantes, seja pela malha viária que conecta o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul a outras regiões do país e a países vizinhos. Para moradores da Região Sul, episódios como a Operação Panóptico reforçam a importância de operações conjuntas entre estados, já que o combate a organizações criminosas de alcance nacional dificilmente é eficaz quando restrito a uma única unidade federativa.
A Operação Panóptico deve seguir gerando desdobramentos nas próximas semanas, à medida que o Ministério Público do Paraná avança na análise das provas recolhidas e na responsabilização dos investigados. Para os moradores do Paraná e de Santa Catarina, episódios como esse mostram como o trabalho de inteligência policial tem avançado no enfrentamento ao crime organizado na Região Sul, ainda que o custo dessas operações, como os confrontos registrados em Cambé e Nova Londrina, mostre os riscos enfrentados por agentes de segurança no dia a dia. Vale acompanhar os próximos boletins oficiais do MP paranaense e da Secretaria de Segurança Pública para entender melhor os efeitos práticos da ação sobre a atuação da facção investigada na região.
Fontes:
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

