Levantamentos recentes mostram crescimento dos ecossistemas de inovação no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, impulsionado pela inteligência artificial.
Quem acompanha o setor de tecnologia no Brasil já percebeu: a Região Sul deixou de ser apenas um polo agrícola e industrial para se firmar também como um dos principais berços de startups do país. Dados recentes do Sebrae Startups Report Brasil 2025 mostram que a região concentra cerca de 20,3% de todas as startups brasileiras, número que coloca Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul entre os ecossistemas mais relevantes fora do eixo Rio-São Paulo. Curitiba, inclusive, aparece na terceira posição entre os melhores ecossistemas de inovação do país no Global Startup Ecosystem Index 2026, atrás apenas da capital paulista e da capital fluminense. Mas o que está, de fato, sustentando esse crescimento, e o que esperar dos próximos meses para quem trabalha ou pretende investir em tecnologia no Sul do país?
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul ampliam presença no cenário nacional
O avanço da Região Sul no mapa da inovação brasileira não é um fenômeno recente, mas vem se consolidando ano após ano. Segundo o Mapeamento das Startups Paranaenses, elaborado pela Fundação Araucária em parceria com a Secretaria da Inovação e Inteligência Artificial do estado, o Paraná já conta com 2.457 startups mapeadas em seu território. Curitiba continua como a principal referência do estado, mas cidades como Londrina, Maringá, Cascavel e Ponta Grossa vêm fortalecendo seus próprios ecossistemas locais, ampliando a presença da economia baseada em tecnologia para além da capital. Esse movimento de interiorização da inovação é visto por especialistas como um dos diferenciais do estado em relação a outros polos tecnológicos do país.
Santa Catarina, por sua vez, mantém a maior concentração de startups por habitante de toda a Região Sul, segundo o Distrito Santa Catarina Tech Report. O estado reúne hoje 25 incubadoras, 6 parques tecnológicos e 3 aceleradoras, com destaque para Florianópolis, Joinville e Blumenau como os principais polos catarinenses. Já no Rio Grande do Sul, iniciativas como o BRDE Labs, programa do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul em parceria com associações locais de tecnologia, têm ajudado a preparar startups gaúchas e catarinenses para rodadas de investimento, somando mais de 400 empresas apoiadas desde a criação do programa em 2022, com taxa de sobrevivência superior a 93% entre as participantes.
Inteligência artificial e investimento puxam o crescimento do setor
Entre os fatores que devem sustentar a expansão do ecossistema sulista no segundo semestre de 2026, a inteligência artificial aparece como o principal vetor de transformação. Segundo levantamento do Observatório Sebrae Startups, mais da metade das startups brasileiras já utiliza IA em algum produto ou processo interno, tendência que também se reflete nas empresas da Região Sul. É o caso da gaúcha Zeit, deeptech que combina inteligência artificial e química para realizar análises de solo e de qualidade de commodities, como o farelo de soja, diretamente no campo ou em portos como o de Paranaguá. A empresa, que atua em cinco estados, projeta faturar R$ 5 milhões em 2026 e dobrar o tamanho da equipe até o fim do ano, segundo informações divulgadas pela própria companhia.
Além da tecnologia aplicada ao agronegócio, o investimento público também tem papel relevante nesse cenário. O Paraná, por exemplo, publicou recentemente um edital de até R$ 20 milhões para apoiar startups do estado, parte do programa Paraná Anjo Inovador, que já destinou R$ 37 milhões a empresas locais desde sua criação. Para Marilucia Pertile, CEO da aceleradora curitibana Start Growth, o mercado de startups vive hoje uma fase mais madura: segundo ela, o desafio atual não é mais apenas criar novas empresas, mas transformá-las em negócios preparados para crescer e competir em mercados cada vez mais exigentes, movimento que deve marcar o ecossistema brasileiro nos próximos anos.
O que esperar do setor de tecnologia na região nos próximos meses
Os especialistas consultados pelo mercado apontam cinco vetores principais para o crescimento do setor de startups até o fim de 2026: a adoção em escala da inteligência artificial, a expansão dos ecossistemas regionais fora do eixo Rio-São Paulo, a retomada gradual dos investimentos privados, o avanço de modelos de negócio mais sustentáveis e o fortalecimento das parcerias entre governo, universidades e iniciativa privada. Essa combinação de fatores explica por que o Sul do Brasil, historicamente associado à força do agronegócio e da indústria, vem ganhando relevância também como destino de capital de risco e talento qualificado em tecnologia.
Para quem vive ou empreende na região, o movimento traz benefícios concretos: mais empregos qualificados, maior atração de investimento externo e soluções tecnológicas pensadas para os próprios desafios locais, como a logística agrícola, a gestão de água e a modernização de processos industriais. À medida que cidades médias do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul seguem fortalecendo seus parques tecnológicos e programas de aceleração, a expectativa do setor é que a Região Sul amplie ainda mais sua participação no total de startups do país ao longo dos próximos anos.
O crescimento do ecossistema de inovação no Sul do Brasil mostra que a região conseguiu unir tradição produtiva e tecnologia de ponta, criando um ambiente favorável tanto para grandes investidores quanto para pequenos empreendedores que querem testar novas ideias. Entre dados de mapeamento estadual, editais públicos e cases de sucesso como o da Zeit, o que se vê é uma transformação consistente, e não passageira, do perfil econômico de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Para quem mora na região ou pretende investir por aqui, acompanhar de perto esses movimentos pode significar identificar, ainda em estágio inicial, as próximas grandes empresas de tecnologia nascidas no Sul do país.
Fontes:
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

