O mercado de jogos digitais atravessa uma mudança de mentalidade que reposiciona o valor de um título muito além do momento de seu lançamento. Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, acompanha esse movimento em que a propriedade intelectual nos games deixa de ser um ativo secundário e passa a orientar decisões centrais de investimento e planejamento dentro dos estúdios.
Criar uma marca própria, capaz de sustentar universos narrativos e produtos derivados, tornou-se parte da estratégia de sobrevivência de estúdios que buscam previsibilidade financeira em um setor marcado por ciclos curtos de atenção do público.
Nas próximas seções, o texto detalha os fatores que explicam essa mudança e os desafios envolvidos na construção de uma propriedade intelectual duradoura.
Por que criar uma IP própria mudou a estratégia dos estúdios?
Durante muito tempo, o sucesso de um estúdio era medido pelo desempenho comercial de cada lançamento isolado, sem que houvesse necessariamente continuidade entre um projeto e o seguinte. Esse modelo funcionava enquanto o custo de produção permanecia relativamente contido.
À medida que orçamentos de desenvolvimento cresceram, criar propriedades intelectuais próprias passou a representar uma forma de diluir riscos financeiros ao longo do tempo. Um universo bem estabelecido permite lançamentos subsequentes com custo de aquisição de público menor do que o exigido por um título inteiramente novo.
Como pondera Richard Lucas da Silva Miranda, essa lógica se aproxima da estratégia adotada há décadas por estúdios de cinema e editoras de quadrinhos, nos quais uma marca consolidada sustenta décadas de produtos derivados e reinvenções.
Como uma propriedade intelectual bem estruturada pode gerar valor além do lançamento?
Uma IP bem estruturada gera valor em múltiplas frentes: expansões, produtos licenciados, adaptações para outras plataformas e, em alguns casos, incursões em outros formatos de entretenimento, como séries e materiais impressos.
Esse potencial de expansão transforma a propriedade intelectual em ativo financeiro mensurável, capaz de influenciar avaliações de mercado e negociações com investidores. Estúdios que possuem IPs consolidadas tendem a negociar em condições mais favoráveis do que aqueles cujo catálogo depende de lançamentos isolados sem continuidade.

O desafio de transformar uma criação digital em franquia
Nem toda propriedade intelectual bem recebida pela crítica consegue se transformar em franquia sustentável. O processo exige planejamento de longo prazo, capacidade de expandir o universo sem comprometer sua coerência interna e investimento contínuo em comunidade.
Quais fatores costumam diferenciar as franquias que se sustentam ao longo do tempo?
- Expansão gradual do universo, sem diluir sua identidade original
- Consistência narrativa entre os diferentes produtos derivados
- Investimento constante no relacionamento com a comunidade de fãs
Na leitura de Richard Lucas da Silva Miranda, empreendedor do setor de games, o principal risco está em expandir um universo rapidamente demais, diluindo o que originalmente conquistou o público. Franquias bem-sucedidas costumam crescer de forma gradual, testando cada nova adição antes de ampliar significativamente o escopo da marca.
Mercado de games amadurece e valoriza a construção de universos próprios
O mercado global de games amadureceu a ponto de tratar propriedades intelectuais como parte central da estratégia competitiva, e não apenas como resultado eventual de um lançamento bem-sucedido.
Estúdios independentes, em particular, passaram a enxergar a criação de universos próprios como forma de reduzir dependência de publishers externos e de negociar parcerias em posição mais equilibrada. Esse movimento fortalece a indústria brasileira de jogos digitais, ao abrir espaço para que estúdios nacionais construam ativos duradouros, capazes de sustentar a operação por vários anos.
Em linha com o que expõe Richard Lucas da Silva Miranda, a tendência é que estúdios em fase de amadurecimento invistam em propriedade intelectual desde o primeiro projeto, tratando a construção de marca como parte inseparável do planejamento de negócio, e não como uma etapa posterior ao sucesso comercial.

